sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Saiba identificar e tratar a depressão


Embora seja grave, muitas vezes a doença é confundida com uma simples tristeza.
A tristeza é uma das cinco emoções naturais aos seres humanos e se manifesta normalmente diante de situações que envolvem principalmente perda, desamparo, frustração/desapontamento, fracasso e/ou exclusão/rejeição. Por outro lado, a depressão tem características neuroquímicas importantes e não depende de um evento gatilho para se manifestar. Frequente em vários países, de 3% a 11% da população em geral pode apresentar esse transtorno anualmente.
“Infelizmente, muitas pessoas não buscam tratamento para Depressão por confundi-la com uma tristeza profunda. A causa da depressão é tida como multifatorial, isto é: converge vários fatores como o estilo de vida, o tipo de personalidade, a história pessoal e a predisposição genética. Não há um momento único ou específico em que a depressão comece. Muitas pessoas apresentam sintomas depressivos na infância ou na adolescência. Tenho pacientes que após uma seqüencia de eventos traumáticos na idade adulta manifestaram a depressão. Esta síndrome tem sido cada vez mais frequente em nossa sociedade“, afirma o psicólogo clínico e doutor em Neurociência e Comportamento pela USP, Julio Peres. “As pessoas precisam entender que Depressão é uma doença que requer tratamento especializado. Vale lembrar que a Depressão é a segunda causa de incapacidade no trabalho – a projeção é que, até 2020, seja a primeira da lista – e, ainda sim, apenas 10% das pessoas deprimidas recebem tratamento adequado.”
São vários os tipos e subtipos de Depressão. E o diagnóstico dos estados depressivos deve considerar se os sintomas são primários ou secundários a traumas psicológicos, doenças, uso de drogas e medicamentos. Fatores hormonais (como o funcionamento precário da tireóide ou desbalanceamento de outros hormônios) são variáveis que também devem ser consideradas para que não aconteça um falso diagnóstico. No diagnóstico da depressão são considerados os sintomas psíquicos (tristeza, angústia, autodesvalorização, culpa, diminuição da capacidade de experimentar prazer nas atividades antes consideradas agradáveis, sensação de perda de energia, dificuldade de se concentrar ou de tomar decisões), fisiológicos (alterações do sono, alterações do apetite, redução do interesse sexual) e evidências comportamentais (retraimento/isolamento social, crises de choro, ideações/comportamentos suicidas, lentificação ou agitação motora expressivas).
“As pessoas com Depressão precisam ser acompanhadas regularmente por profissionais especializados (psiquiatras e psicólogos)”, ressalta Julio Peres. “Um episódio depressivo pode durar em média 20 semanas e a psicoterapia pode ser um dos caminhos para o tratamento; já que falar sobre as ocorrências que originaram a tristeza ameniza gradativamente a expressão emocional desregulada. À medida que o indivíduo verbaliza suas angústias ao psicólogo, ele passa a ouvir a si mesmo de uma maneira diferenciada e a organização mental se configura.”
Segundo Julio Peres, o paciente pode ser considerado em depressão quando apresenta cinco ou mais dos seguintes sintomas por duas semanas (todos os dias ou quase todos os dias):
• Interesse ou prazer acentuadamente reduzidos.
• Humor deprimido (tristeza).
• Perda ou ganho significativo de peso (apetite) sem estar em dieta.
• Insônia ou hipersonia.
• Agitação ou retardo psicomotor.
• Fadiga ou perda de energia.
• Sentimento de inutilidade ou culpa excessiva.
• Capacidade reduzida de pensar ou concentrar-se.
• Pensamentos recorrentes de morte, ideação suicida.
No Brasil, segundo dados da divisão de saúde mental da OMS (Organização Mundial da Saúde), a prevalência da depressão na população é de 18%.
Julio Peres é psicólogo clínico e Doutor em Neurociências e Comportamento pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Fez Pós-doutorado no Center for Spirituality and the Mind, University of Pennsylvania e na Radiologia Clínica – Diagnóstico de Imagem pela UNIFESP. Autor de estudos que investigaram os efeitos neurobiológicos da psicoterapia através da neuroimagem funcional (Psychological Medicine 2007 e Journal of Psychiatric Research 2011).


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